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Alegoria
Houve uma vez um homem
que chegou ao meio de sua vida. Ele decidiu que era hora de refletir
sobre o seu valor e avaliar sua direção. Assim, deixando seus amigos,
sua família e a maior parte de suas posses para trás, foi para os
bosques onde poderia pensar sem ser perturbado.
Quando entrou no
bosque, ele não sabia se estava fazendo a coisa certa, mas sabia que
tinha que faze-lo. A princípio, a beleza do novo ambiente o encheu de
admiração e espanto. Logo aprendeu a ouvir os sons da natureza e,
enquanto as semanas se transformavam em meses, vagarosamente ele se viu
mudando. De vem em quando sentia falta das pessoas que deixara, mas a
grande beleza de seu novo ambiente o atraía mais para o mistério que
procurava, e ele não podia voltar atrás.
Ele aprendeu a tempo a
ouvir seus próprios pensamentos. Podia ver sua mente nas árvores e
sentir suas emoções nos arbustos. O perfeito equilíbrio da natureza que
o cercava estava começando a se tornar ele mesmo. A luta que
habitualmente travava dentro de si mesmo vagarosamente começava a
desaparecer. A princípio ficou assustado, pois, embora não tivesse
percebido, a agitação à qual sua mente estava acostumada tinha lhe feito
companhia. Agora ela não existia mais e havia somente a grande
tranqüilidade da natureza.
Mais tempo se passou e ele começou a perceber que não podia
mais classificar as pessoas a respeito de quem ele costumava ter
opiniões. Começou a ver a falta de importância de classificar todas as
pequenas coisas que costumavam afligi-lo. Agora ele tinha um problema
diferente. Com uma mente lúcida, sem preocupações cansativas que sempre
atormentaram seu espírito, o que deveria fazer? No passado, as vozes dos
outros, com suas fortes opiniões, de algum modo o guiaram. Os efeitos
das vidas de outras pessoas violaram tanto a sua própria vida que ele
nunca realmente teve que se preocupar com a direção que ela deveria ter. |
Após dois anos nos
bosques, ele começou a imaginar se o mundo lá fora tinha mudado tanto.
Ele pensou nas pessoas que tinha conhecido, imaginou como estariam
agora. Então, descobriu uma coisa surpreendente a respeito da mudança
que tinha se passado dentro dele. Tudo que tinha a fazer era pensar numa
pessoa e, de algum modo, através de um curioso milagre, ele
instantaneamente sabia como a pessoa estava agora. A princípio ele achou
difícil de acreditar, mas, depois de um tempo, descobriu o que os
bosques lhe tinham feito. Ele podia tocar uma folha e saber quando ia
chover; de algum modo podia sentir a presença até mesmo do menor dos
animais a centenas de metros de distância. E ele sempre estava certo.
Alguma coisa o colocou em sintonia com a perfeita harmonia da natureza.
O mais ligeiro abalo no equilíbrio ecológico, ao qual ele se acostumou,
instantaneamente atrairia a sua atenção.
Pela primeira vez em
sua vida percebeu que era parte da criação de Deus. Ele tinha lido a
esse respeito em livros. Secretamente tinha sonhado com isso, mas era
diferente. Ele estava realmente participando.
Ele se sentou e
encostou-se no tronco de uma enorme sequóia para refletir. De algum
modo, por caminhos que não compreendia, ele tinha obrigado a si mesmo a
passar por anos de tortura emocional. Então, testou sua habilidade e sua
vontade de sobreviver entre os elementos naturais que não lhe eram
familiares. E, para seu espanto, lá estava ele, intacto, apesar de tudo.
Passaria o resto de sua vida na floresta ou iria, antes que fosse tarde
demais, encontrar pessoas, como fizera no passado? A pergunta
desconcertou-o, pois sabia que nunca deveria contar a ninguém a respeito
do que tinha descoberto. Sob certos aspectos ele temia que a força dos
desejos das outras pessoas o levassem de volta a tudo o que tinha
abandonado. Contudo, depois de dois anos nos bosques, ele estava se
sentindo solitário. Não era o mesmo tipo de solidão que conhecera antes
de sua viagem. Ele desejava os sons da natureza nas pessoas. Os longos
meses que passou sozinho o tornaram calado. Ele gostaria de partilhar o
que descobriu, mas também sabia que deveria preserva-lo para si mesmo.
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Ele se lembrou como
antes parecia ser tão importante tentar reformar o mundo ou talvez
redimi-lo de alguma destruição iminente, imprecisa. Agora, não tinha
mais o mesmo sentimento. Tinha descoberto sua identidade entre as
árvores e as flores. Ele havia testemunhado como todas as coisas na
natureza se completam na estação certa. Agora ele também se sentia
completo com a alegria abundante da natureza. Durante meses ele comparou
tudo que sentia nos bosques com o que sabia que iria sentir das pessoas.
Aqui nos bosques ele
observou cada momento se renovar através da vividez do “Agora” sempre
presente. Independente do tempo ou dos dias havia uma grande paz
interior. Ele colheu uma pequenina flor e olhou-a com atenção. De algum
modo, sabia que a flor seria capaz de lhe responder. Sem palavras, a
flor encheu-o de alegria; e ele percebeu que ela o fazia sem perder sua
beleza própria. Mas ele havia colhido a flor e sabia que ela não
cresceria mais. Isso o entristeceu. Se apenas ele fosse capaz de ter sua
resposta ao olhar para a flor sem tira-la de seu hábitat natural... e
então ele ficou iluminado.
Se deixasse a floresta
para iluminar os outros, estaria afastando a si mesmo de sua fonte
natural. Por quanto tempo suportaria? Como a flor, ele floresceria
apenas durante algum tempo e então murcharia. Ele decidiu que seria mais
sábio permanecer dentro de sua fonte. O “Agora”, no final das contas,
não era alguma coisa de que se gabar ou mesmo para se levar aos outros,
mas, sim, para se experimentar pessoalmente. Ele sorriu enquanto
pensava: “Deixe aqueles que desejam conhecer a ventura virem para a
floresta por eles mesmos, onde bem dentro dos recessos de suas mentes e
corações sentirão o vento, provarão a chuva, e deixe que a gentil
sabedoria da lei natural guie sua viagem”.
Texto extraído do livro O Carma do Agora de Martin Schulman – Editora
Ágora
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